O que está acontecendo com a Balenciaga?

Como fiel espectadora de desfiles de moda, fico muito triste quando um designer novo chega e deturpa todo o legado de uma grife importante. Aconteceu isso com a Dior em 2012, quando o Raf Simons assumiu o cargo de diretor criativo e aniquilou o estilo “lady like”, que era a alma da marca. Agora estamos vendo a mesma coisa acontecer com a Balenciaga, graças ao Demna Gvasalia.

Tá certo que a Balenciaga não segue muito o estilo clássico já há alguns bons anos, mas a criatividade das peças sempre teve um conceito misturado com o ponto de vista focado no comercial. Tanto que o Nicolas Ghesquière, estilista responsável por essa renovada e popularização da marca, saiu de lá em 2012, após 15 anos de dedicação falando exatamente sobre como a direção o impedia de usar sua liberdade criativa:

“Durante os últimos dois ou três anos foi uma frustração atrás da outra. Foi essa falta de cultura que me incomodou no final. As peças mais fortes que fazíamos para a passarela eram ignoradas pelas pessoas dos negócios. Eles esqueciam que para termos aquela “biker jacket” super-vendável precisávamos começar por uma peça de passarela com uma técnica perfeita. Comecei a ficar infeliz quando percebi que não existia estima, interesse ou reconhecimento pela pesquisa que eu fazia; eles só se interessavam pelo que seria o resultado mercadológico. Tornei-me o Sr. Merchandiser”, diz.

Hoje, Ghesquière ocupa o cargo na Louis Vuitton e continua encantando com a sua criatividade altamente mercadológica e comercial. Em compensação, a Balenciaga viveu uma troca de estilistas meio infeliz. Primeiro contrataram o Alexander Wang, que é excelente, mas a parceria durou apenas 3 anos. Logo, a marca precisou substituí-lo com urgência, e é aí que perderam a mão ao contratarem o estilista alemão, Demna Gvasalia (do coletivo Vetements). Veias artistas bem distintas e conflitantes.

No ponto de vista comercial, ele até deu umas bolas dentro e conseguiu lançar moda de certas peças que vemos sendo copiadas ad. infinitum por aí. É o caso das correntes gigantescas nos óculos – $495 – e das botas otk ‘Knife’ super exageradas que caíram no gosto das fashionistas.

Aliás, essa bota de R$8.500 segue o mesmo padrão daquela que eu fiz para minha fantasia de Halloween no ano passado. Se quiserem, ensino como fazer igual gastando apenas uns R$30 de material! Lancei tendência com a minha versão prata, até a Balenciaga me copiou agora na coleção de verão 2018 (risos):

No meu ver, isso foi mera sorte do estilista por conseguir se aproveitar do status que a marca proporciona por si só. Ou vocês acham que essa bota e essa corrente teria recebido alguma notoriedade se fossem lançadas por algum estilista não muito famoso? Ou então se custassem $5 inicialmente? Pois é. Essa história de “desejar o inalcançável” todo mundo já está careca de saber que acontece desde sempre, né.

Mas o pior é exatamente isso. Parece que o estilista pirou ao saber que poderia lançar qualquer coisa horrorosa com uma etiqueta que todo mundo desejaria enlouquecidamente. Foi o caso de copiar a bolsa de compras da Ikea (rede de loja de móveis baratos) que custa apenas $0,99 (você leu certo, MENOS DE 1 DÓLAR!) e fazer uma idêntica da Balenciaga custando $2.145!

A internet ficou chocada com essa história e logo a viralizou como PIADA.

Isso pq poucos conhecem as SACOLAS DE FEIRA do Brasil e da América Latina, que também foram utilizadas como inspiração pela marca, que vendeu modelos idênticos por $1300!

Você quer ser sacoleira de luxo?

Já que o assunto é sacolas. Que tal uma shopping bag pela bagatela de $1100?
Ela esgotou em pouco tempo, acreditem!

Mas não fique triste, pois tem a nova versão da shopping bag em preto por $1135!

Não contente com esses vexames, Gvasalia criou outra peça para virar chacota. Em parceria com a Crocs lançou o sapato “Foam”, uma plataforma de 10cm e vários pins coloridos. Tem rosa millennial e amarelo banana:

Tenho um pressentimento que ele curte a filosofia dos brasileiros: “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim”. Tanto que já admitiu que não explica suas ironias e entende o motivo do público ficar brabo com suas criações. Essas controvérsias vêm desde os tempos da Vetements, quando ele lançou uma camiseta da DHL com valores absurdos – €245 – que se esgotou em pouco tempo. Demna assumiu que jamais compraria algo da própria marca por causa dos preços superfaturados. Ou seja, chamou os consumidores de trouxa! #nasuacara

Você pagaria R$900 por uma camiseta dos Correios? 😂

Eu, que geralmente tenho uma grande tolerância ao que é arte na moda e peças conceituais abstratas no mundo da Alta-Costura, não consigo engolir o trabalho dele. Vejam bem, não estamos falando de uma grife como a Moschino e nem das criações loucas do Jeremy Scott, mas sim de uma assinatura da Balenciaga, famosa pela forma clássica de puxar alguns limites de uma forma não infantil ou jocosa como essa.

Tem até um  “marabu” ou “boá“, tipo aquelas pluminhas que faziam parte da decoração do nosso quarto lá no início do milênio. Só que o cachecol da Balenciaga custa R$1920 e é feito do mesmo material – penas de peru – do que aquelas de R$5 que encontramos nas lojas de artigos de festas.

Tudo bem quando tem um conceito legal por trás da peça que te faz pensar. Mas isso?! Isso só me faz pensar que os caras tão loucos pela geração “Tumblr do Instagram“. Só que, por motivos óbvios, esse público também não têm poder aquisitivo para torrar nessa atrocidade. Então, qual o objetivo?

Vocês conseguem imaginar alguma blogueira de respeito usando isso? Eu sinto vergonha alheia por antecipação de quem receber esse sapato de “mimo” em troca de divulgação. (Porque obviamente eles irão apelar muito para tentar desovar esse encalhamento!)

Não me venham com a desculpa da moda de “ugly shoes” pq isso não me desce! Nem que isso é para chamar atenção para o desfile. Isso é lamentável, triste e deprimente. A única desculpa plausível seria uma crítica ao consumo, só que nesse caso a piada seria o próprio consumidor.

P.S.: Nem entrei no mérito de falar sobre os maus tratos cometidos pela marca com as modelos! Isso é tão absurdo e revoltante que eu prefiro que vocês leiam em outro site.

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Hip Hop, street style e a valorização da Moda – Marc Jacobs

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Nem preciso assistir todos os desfiles para eleger o meu favorito dessa temporada do NYFW, pois o Marc Jacobs chegou lacrando com tudo. Um belo tapa na cara da nossa sociedade hipócrita, que tinha transformado a moda em bagunça, transferindo-a para segundo plano nos principais eventos das semanas de moda do mundo inteiro.

Com uma simplicidade poética, Marc Jacobs deixou a moda falar por si em um dos desfiles mais minimalistas que ele já produziu. Sem distrações – não tinha música, nem cenário e até os celulares foram proibidos naquele momento – foi claramente uma tentativa de resgate ao que realmente era importante ali: as roupas e acessórios.

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Apesar de parecer óbvio o objetivo de um desfile, a maioria dos seus frequentadores está ali por outras conveniências que não são a moda. Virou um evento social oco, onde parece ser mais importante sentar na primeira fila ou dizer que foi naquele evento como uma espécie de troféu fashionista (mesmo não tendo absorvido nada dele). Todos querem ser influentes, mas acabam influenciando apenas mais daquela cultura vazia que vemos aos montes nas colunas sociais de qualquer cidadezinha (e agora no Instagram). Os panos pendurados nas modelos e todo o trabalho daquele estilista acabam relegados.

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Então depois desse VRÁ na cara de muitos, começou o show de verdade. A nova coleção foi inspirada no Hip Hop e a importância dele para o desenvolvimento do street style. Marc Jacobs diz que assistiu ao documentário Hip-Hop Evolution na Netflix, que mostra a evolução desse gênero musical dos anos 70 aos 90 e como essa cultura riquíssima foi transferida para o nosso cotidiano naturalmente:

“Como nasci e cresci em Nova York, foi durante a minha época na High School of Art and Design que eu comecei a ver e sentir a influência do hip-hop nas outras músicas e também na arte e estilo. Essa coleção é a minha representação do estilo causal esportivo. É um reconhecimento e um gesto do meu respeito pelo polimento e consideração aplicados à moda de uma geração que será para sempre o fundamento do estilo de rua da cultura juvenil.”

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Observando os detalhes, percebemos que tudo foi pensado para ser usado nas ruas mesmo. Não há nada ali que não possa fazer parte do nosso guarda-roupa. Talvez apenas os chapéus exagerados se reconfigurem um pouco, mas gostei que eles tenham aparecido dessa maneira bem evidente, pois é um sinal de que o estilista apostou forte nessa tendência e a gente pode se divertir bastante com peças mais enxutas (sou suspeita para falar, pois eu amo chapéus!). Amei as cores nude, marrom e dourado praticamente dominando a paleta do desfile. Os colares gigantes (bling-bling ♥), os casacos com pelúcia (no caso do desfile, acredito que sejam peles de verdade, infelizmente) e os microcompimentos tocam o meu coração.

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Por mais desfiles ricos em cultura e menos futilidade! ❤