A moda agora é ser uma Bratz!

Toda geração sofre algum tipo de influência nos padrões de beleza e na minha infância 90’s não foi diferente, todas as meninas queriam ser Barbies. Como podemos observar pela moda dos anos 2000, essas meninas, então adolescentes, fizeram de tudo para conquistarem o arquétipo tão sonhado. Colocar silicone, ser loira, cabelão gigante, magra, sem celulite, sempre com roupas “girlie”, fofinhas, rosa, com babados e etc.

A influência podia ser percebida inclusive nos desfiles da Victoria’s Secret, onde lá desfilavam as “melhores” modelos da época e era um sonho de consumo para milhões de adolescentes, fazendo com que todos quisessem ser elas – uma versão live action das Barbies. Não vou mentir que eu também caía nessa, e acredito que pouquíssimas mulheres não se sentiram impotentes perante um padrão tão irreal.

Apesar de muitos poréns, pelo menos a Barbie incentivava as meninas a acreditarem que podiam ser o que quisessem profissionalmente, através do slogan “tudo o que você quer ser, Barbie girl”. Mas isso é assunto de outro post.

Enquanto estávamos idolatrando a Barbie, as meninas da nova geração achavam tudo aquilo antiquado e focavam seus corações nas Bratz, bem mais modernas e com roupinhas muito mais legais. O slogan delas já dizia: “meninas com paixão pela moda!”. Elas eram uma atualização muito mais sexy e ousada da Barbie – tipo Britney Spears x Marilyn Monroe. Não é à toa que em 2006 as Bratz arrecadavam quase 1 bilhão de dólares anualmente e roubavam 40% do mercado de consumidores das Barbies.

Hoje, 18 anos depois, essas meninas que brincavam com elas cresceram e as vemos pelo Instagram exibindo os padrões nos quais elas foram incutidas a almejar:

  • lábios volumosos
  • cílios longos
  • sobrancelhas milimetricamente desenhadas
  • maquiagem carregada
  • cabelo impecável e muitas vezes com cores fantasia
  • roupas com apelação sexual fortíssima

Elas viraram as próprias Bratz! Ainda mais depois que o desafio #BratzChallenge tomou proporções gigantescas, com meninas do mundo inteiro aderindo e se maquiando como as bonecas – o pior de tudo é: pesando a mão no Photoshop e Facetune para ficarem ainda mais semelhantes (ou seria irreais?).

As influenciadoras de beleza estão passando esse padrão para as meninas ainda mais novinhas que as acompanham. Quantas meninas de 12 ou 18 anos você conhece e que já não se acha bonita se não estiver com base reboco, cílios postiços ou alongados, corretivo, contorno intenso, olhos com maquiagem pesada e lábios contornados ou preenchidos de maneira que chega a ser caricato?

O mais irônico é que, nos últimos anos, a indústria de brinquedos tenta moldar suas bonecas aos padrões progressistas do movimento “Body Positivity“, trazendo corpos plus-size, peles com cores diferentes e até bonecas de ícones feministas. Tudo para que as meninas se sintam representadas de maneira mais real.

É aí que o #BratzChallenge perde a linha e fica ainda mais problemático. Pessoas imitaram bonecas com vitiligo para parecerem “cool” e se destacarem na competição de likes do Instagram. Uma maquiadora com vitiligo, Lauren Elyse, relatou quão problemático é transformarem uma condição médica em um acessório de moda.

Como se o problema já não tivesse tomado grandes proporções, outra participante resolveu recriar a Bratz da Frida Kahlo, cuja família Kahlo baniu a representação e as vendas de bonecas por inúmeras questões, incluindo o uso não autorizado de imagem e a ausência de essência por tudo o que a artista representava.

 O mais chocante do desafio não é o fato das influencers de beleza quererem parecer versões irreais de bonecas, mas de elas serem assim fora do desafio também e ainda ensinarem outras pessoas a copiarem seus lifestyles.

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O pior é que eu já tinha reparado na “bratização” das pessoas há um tempo. Eu mesma parei de aplicar ácido hialurônico nos lábios justamente por ter virado uma espécie de uniforme de toda e qualquer menina no Instagram. Vocês já repararam que as bocas artificiais ficam lindas apenas nas fotos de boca fechada? Qualquer vídeo onde a pessoa fala – ou na vida real – esses preenchimentos ficam extremamente artificiais. Mesmo que o meu resultado fosse o mais natural possível, ainda prefiro a versão dos meus lábios fininhos e congênitos que harmonizam melhor com o resto do meu rosto e até o alinhamento dos dentes. Por isso, hoje, com mais maturidade, vejo que o que realmente deixa uma pessoa ainda mais bonita é a versão que veio de fábrica. Isso não impede de brincarmos com maquiagens coloridas, penteados, cortes de cabelo e até mesmo tintura neles. Cada um sabe o que é melhor para si, mas saiba que você não precisa ser a Barbie, as Bratz e ninguém diferente de você mesma! As imperfeições nos deixam perfeitas! O diferente está cada vez mais raro, sua vida real é fora da internet e o Instagram é apenas uma vitrine de mentiras. Fuja das agulhas e bisturi, que podem trazer consequências irreversíveis.

Pegue os milhares de reais que seriam gastos em um cirurgião plástico ou esteticista e gaste em terapia. Será o melhor investimento! Prometo que a chance de sair de lá se amando é muito maior do que com plásticas e feridas.

Alguns trechos do post foram traduzidos desta publicação da Paper Magazine.

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Meninos vestem azul e meninas vestem rosa? Desde quando?

Hoje viralizou um vídeo onde nossa ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos fala que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa” nessa nova era do governo. Mas será que as pessoas realmente sabem a origem da simbologia de cores ligados ao sexo? Por que meninos usam azul e meninas usam rosa? É para isso que a história da moda existe e irei explicar de maneira didática e simples.

Segundo o livro “The Story of Colour: An Exploration of the Hidden Messages of the Spectrum” do Gavin Evans, onde ele fala sobre a cultura das cores, entre o final do século XIX e início do século XX as mães costumavam ouvir que se elas queriam que seus filhos crescessem másculos, era necessário vestí-los de cores masculinas, como o rosa e se quisessem que as meninas crescessem bem femininas, teriam que vestí-las de azul. Sim, ao contrário mesmo! A origem disso vem da Europa, onde a cor azul era associada com o feminino por conta do manto da Virgem Maria, uma cor serena que transmitia calma e ternura. Já o rosa era uma versão para os meninos da masculina cor vermelha, que era uma cor quente, viríl, representava lutas e guerras e também a cor do manto de Jesus Cristo.

Gradualmente isso foi mudando pela metade do século XX, mais precisamente no pós-guerra, pela década de 1950, onde havia fortes propagandas criadas pelas agências de publicidade que induziam as pessoas a aceitarem o rosa como uma cor exclusivamente feminina, o que fez com que a mudança fosse aceita muito rapidamente.

Vale constar também que antes de tudo isso, todos os bebês usavam roupas brancas, pois era muito mais fácil de limpar e não desbotavam com o uso de produtos de limpeza fortes que serviam para tirar manchas, além de poderem ser repassados para todos os filhos da família. O detalhe é que na época do branco, independente de gênero, todas as crianças usavam vestidos por serem mais práticos também. Os meninos começavam a usar calças apenas depois do primeiro corte de cabelo ou ainda mais adiante.

Assistam o vídeo abaixo para uma versão bem completinha e resumida sobre o assunto (é em inglês, mas basta ativar as legendas com tradução automática):

 

Sei que a intenção da ministra não foi uma mera trivialidade sobre moda, também não há nada de ingênuo em uma afirmação colérica assim, apenas expõe a homofobia que permeia a mente de milhões de brasileiros. Estamos em 2019, já vivemos quase 2 décadas de um novo século, mas as palavras e pensamentos que imperam no Brasil nos últimos tempos parecem advindas de outrora, de tempos sombrios. Nossa Idade Média já chegou e as piras estão sendo preparadas para arder em chamas quem eles julgarem como bruxas.

Desejaria começar o ano otimista, mas está difícil, a ignorância se fortalece a cada dia. Os preconceituosos haviam sido marginalizados mas agora lutam para voltar ao topo e tentam resgatar a única forma de sentirem um gostinho de superioridade depois de se constatarem inferiorizados com o avanço da igualdade social que as minorias estavam conquistando. As pequenas bolhas do WhatsApp e Facebook são os novos “guetos” modernos. Um grito que foi ouvido pelos evangélicos, que estão sempre prontos para socorrer coitadinhos (desde que passem pela triagem de “cidadão de bem”, é claro). Os que faziam vítimas agora viraram as próprias vítimas e buscam suas salvações em um milagre divino chamado… vocês sabem quem.

Busquem conhecimento, pois só isso é capaz de nos salvar dessa lavagem cerebral.

Aproveito para deixar aqui alguns links que complementam o assunto: