A femme fatale segundo Julia Nazaly

MULHERES COM A MÃO NA MASSA SÃO MULHERES COM A ARMA NA MÃO:
Uma paixão na cabeça e a vontade de fazer acontecer.

Na vida as coisas não acontecem por acaso, então esse ensaio nem nada do que produzo seriam exceções. Para lhe ser sincera, nem sei bem exatamente quando essa história começa, então começarei me apresentando. Me chamo Julia Nazaly, sou formada em Produção Cultural pela Universidade Federal da Bahia, nasci e vivo até então em Salvador e sou movida por Paixão. Alguns matam por paixão, cometendo aqueles crimes que são denominados crimes passionais, que pode ser considerado o caso da personagem deste ensaio… outros vivem graças a ela, que é o caso desta mulher real que vos fala. São as Paixões que nos motivam a viver e realizarmos aquilo que nos enche a alma. Esse ensaio foi um dos últimos (se não o último) dos meus trabalhos e esse distanciamento de quase um ano da minha Paixão quase me mata, mas isso é história pra outro dia… seria um prazer que você me acompanhasse fora daqui também.

  Sou apaixonada pelas artes e qualquer coisa relacionada a elas. Eu amo o aconchego da madeira de um teatro, o toque de um palco de linóleo nos pés, o cheiro de uma loja de instrumentos musicais, as possibilidades de personagens escondidos num depósito de figurinos, o misto de emoções em uma história bem narrada e também quando eu mesma sento para escrever as minhas próprias. Dentre esses variados amores, nutro um mais que especial que é o amor pelo cinema, mais especificamente a estética dos clássicos policiais norte americanos do período correspondente entre o fim da década de 1930 e começo da de 1950: Os Filmes Noir.

Percebi que esse amor se transformou numa paixão avassaladora quando me vi muito feliz e realizada frequentando as aulas de uma única disciplina num turno oposto às demais da faculdade. Uma disciplina que durante aquele semestre inteiro trataria unicamente desta estética cinematográfica. Um semestre inteiro assistindo e analisando essas obras me fizeram perceber que carregaria esse amor para a vida toda e que, nem que fosse totalmente por conta própria, eu produziria algo memorável dentro das minhas possibilidades sobre a referida temática. Anos passaram e essa vontade não diminuiu; paralelamente me vi trabalhando como modelo comercial e sendo uma atriz em potencial alguns anos depois. Por que não encarnar a mulher fatal; a tão desejada e temida Femme Fatale? Logo eu, que amo tanto essa mistura de cinema, moda e comportamento

Embora minha maior vontade fosse produzir um conteúdo audiovisual (um curta ou uma série de vídeos para que tudo fosse ainda mais fidedigno), levando em consideração o fato de que todo o processo de produção seria realizado por mim e na ausência de recursos gerais (equipe de filmagem, locação mais adequada, tempo, atores etc), optei por realizar um ensaio fotográfico e que nele depositaria o melhor dos meus esforços. Eu faria uma revisão intensa de todas as minúcias dos filmes Noir e do estilo e psicologia das Femme Fatele; além de uma exaustiva busca por profissionais colaboradores e elementos cenográficos realistas (sendo esta segunda parte bem cansativa, tendo em vista que deveria encontrar todos esses elementos aqui mesmo em Salvador).

Ainda que você desconheça a estética cinematográfica Noir, tenho certeza que você conhece personagens ou personalidades da cultura geral que são ou se inspiram em Femme Fatales: Jessica Rabbit, Marilyn Monroe, Viúva Negra, Catherine Tramell de “Instinto Selvagem”, Angelina Jolie, Mulher Gato, Mia Wallace de “Pulp Fiction”, Britney Spears entre outras.  Porém, semanas revisando e coletando referências mais específicas do gênero, cheguei a nomes como Barbara Stanwyck, Lana Turner, Ava Gardner, Claire Trevor, Rita Hayworth, Jane Greer, Kim Novak… e a minha maior inspiração: Lauren Bacall com sua voz rouca e seu olhar maquiavélico. As personagens perigosamente deslumbrantes interpretadas por essas talentosíssimas mulheres sempre frequentavam mansões, clubes noturnos e restaurantes luxuosos; e viviam cobertas com vestimentas elegantes, casacos de pele e joias especialmente caras. Ainda se tratando da psicologia das personagens, claro que eu usei de repertório um texto publicado aqui no Got Sin? que aborda a Femme Fatale e o Feminismo.

Etapa 1: Figurino

Em meu acervo pessoal eu já tinha um vestido que cairia como uma luva: Branco, longo, acinturado e com uma leve transparência. Os sapatos eu também já possuía: um scarpim em couro preto, bico fino suave e salto médio… um clássico! Um lenço roxo de tecido leve teria papel crucial em cena. Brincos de pérola para compor, porém faltava um toque mais intenso de LU-XO, o que viria em breve. Unhas em vermelho, cabelos repletos de ondas largas, maquiagem leve apenas com boca e sobrancelhas intensamente marcadas e expressivas.

Etapa 2: Locação

 Qual ambiente em Salvador remete ao luxo específico desse período? Foi difícil encontrar de cara; mas, para minha sorte e muita felicidade, há cerca de um ano havia sido aberta a filial da rede de restaurantes Paris 6 em um grande shopping. O cenário perfeito. Um diálogo profissional de mulher para mulher abriria as portas para a realização deste ensaio.

Etapa 3: A equipe

Quem trabalha com produção sabe que não basta encontrar uma equipe. Ela tem que ser qualificada e responsável. Através de network cheguei até Frederico Pimentel (fotógrafo) que trabalha juntamente com a Iara Thalita (maquiadora e cabeleireira). O trabalho de tratamento de imagem de Frederico e a atenção aos detalhes da maquiagem e cabelo de Iara colaboraram fortemente para o resultado final das imagens. Como bônus, o fotógrafo morava muito próximo ao shopping, o que colaboraria para que todo o processo de maquiagem, cabelo e troca de roupas pudesse ser feito em sua casa, tornando os bastidores mais prático e tranquilo.

Etapa 4: Cereja do Bolo

Faltava adicionar mais luxo ao figurino e uma arma secreta, literalmente. Não existe Femme Fatale sem a Arma do Crime. Onde encontrar um revólver realista para compor figurino, além de, é claro, um casaco de pele (pele fake, é claro. Tenho total aversão à crueldade) e um belo colar de pérolas? A busca me levou até a Boca de Cena, um acervo privado de elementos para audiovisual e teatro aqui na cidade. Esta Arma Secreta seria estrategicamente envolvida no lenço roxo mencionado anteriormente. Elementos devidamente alugados… hora da ação!

Etapa 5: O Grande Dia

Mala pronta… pontualidade… cabelo e maquiagem… equipamentos fotográficos em ordem. As fotos deveriam ser feitas até o começo da chegada de clientes para o almoço para evitar que o ensaio atrapalhasse a rotina de atendimento já que o restaurante não seria fechado para as fotos. Teríamos menos de 1h30min para fotografar e fazer qualquer outro registro.

Impossível ser uma Femme Fatale clássica de Filme Noir sem ser pelo menos um pouquinho atriz: Hora de encarnar a mulher linda e traiçoeira. Talvez sedenta de vingança, talvez apenas interessada em uma herança milionária. Uma coisa era certa… sua vítima era um homem que, ou tentou enganá-la ou era um obstáculo para seus sonhos de riqueza e poder. O contexto e cenas do crime estavam prontos. Hora de atuar e realizar os registros. Trabalho concluído com agilidade e qualidade… começam a chegar os primeiros clientes do restaurante.

“Cuidado! Ela é perigosa…”

Uma taça de bebida tira a agilidade de uma Femme Fatale?

O que é mais letal? O revólver ou esse olhar?

Puro drama!

“Vamos continuar fotografando o máximo. Só até enquanto não chega gente pra ser atendido…”

“Querido, a sua hora chegou!

“Pelo amor de Deus, eu não matei meu marido! No desespero eu peguei, eu nem sabia que podia ficar com minhas digitais!”

O Retorno do Público:

As fotos foram publicadas em minhas redes sociais e nas do fotógrafo, nos rendendo um feedback maravilhoso, especialmente das pessoas que conhecem e são amantes dessa estética. O público do fotógrafo gostou tanto que uma das imagens foi parar em seu portfólio impresso. Quanto a mim, fui até presenteada com um desenho feito 100% à mão de um dos registros deste ensaio. Ver que todo o meu esforço em trazer realidade para as imagens e ter esse reconhecimento dos fãs da arte me trazem uma enorme satisfação e um sabor doce de realização. Uma dessas pessoas foi a Sylvia Santini daqui do Got Sin? que me convidou para publicar as fotos e esse texto. Ao sabor doce de realização foi acrescentado outro sabor que não consigo descrever. Sylvia é uma verdadeira fã das Femme Fatale e se inspira nelas para compor muito mais do que looks de moda, mas compor um estilo de vida. Sou imensamente grata pela oportunidade.

Para mais conteúdo e imagens de bastidores acesse também o link.

Ficha Técnica:

Conceito, Produção e Modelo: Julia Nazaly (@JuliaNazaly)

Fotografia: Frederico Pimentel (@fredericops)

Maquiagem e Cabelo: Iara Thalita (@itha.make)

Locação: Restaurante Paris 6 (Unidade Shopping da Bahia) (@paris6salvador)

Ilustração: Guilherme Rogers (@guib99_cosplay)

POST BY JULIA NAZALY

Retrospectiva GOT SIN? 10 anos – 2011 – Lingerie Day

RETROSPECTIVA GOT SIN?

2011

Quebrando a internet brasileira.

 

Uma blogueira de moda tirando foto de lingerie? QUE OUSADIA! Em um país onde todas as fashionistas queriam ser a Blair Waldorf sem graça, nunca me apeteceu seguir regras de bons costumes com o vestuário e muito menos usar uniforme. Afinal, o GOT SIN? foi criado para quebrar barreiras e exibir moda sem pudores. O look do Lingerie Day foi tão polêmico que as minhas fotos estamparam todas as capas dos maiores portais de notícias do Brasil!
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Enquanto na década de 1960 as pessoas se chocavam com uma minissaia, no começo da década em que vivemos o motivo de alarde eram fotos com lingerie. Mas eu acredito que para haver um equilíbrio na sociedade as coisas precisam chegar de forma exagerada, como um susto, e só depois é que vão se adequando e normalizando. O fato de ser ou não libertador tirar fotos assim depende muito do contexto, do tempo e da sociedade em que a pessoa vive. Sempre soube que eu não era uma “mulher objeto”, eu tive (e tenho) controle sobre toda a minha narrativa na hora de produzir, modelar e divulgar as imagens. Dentro do contexto em que eu vivia – em uma cidade gaúcha conservadora pudica onde tudo é pecado – me senti livre. Hoje qualquer blogueira está por aí exibindo looks de biquíni, lingerie e roupas curtas de academia, mas alguém teve que abrir essa porta na marra algum dia. Alguém levou muitas pedras nas costas para toda e qualquer mínima liberdade que conquistamos pudesse ser usufruída – eu só tenho que agradecer todas as feministas que fizeram com que eu tivesse a autonomia e poder de escolha para isso tb. O meu feminismo não é cerceador, eu me sinto bem de lingerie do mesmo jeito que algumas mulheres se sentem empoderadas com maquiagem, por exemplo. Eu amo o meu corpo por completo! O que os outros vão pensar de desagradável é problema deles e, mesmo não gostando, precisarão me respeitar. Não é por que estou de roupa curta ou comprida que a minha permissividade e condescendência muda.
P.S.: Para quem acha que eu precisei photoshopar o meu corpo, fiz questão de publicar um vídeo inédito dos bastidores nos Stories. 💅

Este mês eu trago um especial no Instagram para celebrar os 10 anos do GOT SIN?! Acompanhe a hashtag #gotsinRETRO , os stories e o blog para não ficar de fora!

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